“O Holocausto Brasileiro” e a comodidade em virar as costas

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O que? O holocausto não aconteceu na Segunda Guerra? Bem longe do Brasil? Como assim “holocausto brasileiro”???

Não dá pra negar que 60 mil mortes componham um holocausto… Mas e se eu ainda te contar que todas essas mortes ocorreram dentro de um hospital, aqui mesmo no Brasil?

É isso que o livro reportagem da jornalista Daniela Arbex traz à tona: a verdade sobre um dos maiores hospitais do país, numa época em que praticamente qualquer um estava sujeito a ser internado: epilépticos, homossexuais, mulheres que haviam perdido a virgindade antes do casamento… E se não bastasse a internação confusa, os cuidados prestados eram mais duvidosos ainda.

A primeira vez que ouvi sobre esse livro foi durante uma das minhas aulas de Pós Graduação em Psicologia Jurídica, como recomendação de uma professora. Claro que logo quis ler, já que esse tema me prende facilmente a atenção. Acabei ganhando ele alguns meses depois, e, devido ao tcc, só iniciei a leitura há algumas semanas atrás.

Por ser graduada em Psicologia, ter feito estágio e projeto comunitário na área de saúde mental, eu tinha uma vaga ideia do que me reservava a leitura. Mas a descrição dos acontecimentos ocorridos no século XX, no Hospital Colônia, em Barbacena, me sensibilizou muito mais.

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“Alguns morriam de frio, fome e doença (…) Nos períodos de maior lotação, 16 pessoas morriam a cada dia. Ao morrer, davam lucro. Entre 1969 e 1980, 1853 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para 17 faculdades de medicina do país, sem que ninguém questionasse. Quando houve excesso de cadáveres e o mercado encolheu, os corpos foram decompostos em ácido, no pátio do Colônia, diante dos pacientes, para que as ossadas pudessem ser comercializadas. Nada se perdia, exceto a vida.”

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Daniela Arbex faz uma minuciosa pesquisa sobre o que acontecia realmente com os pacientes do hospital. De onde vinham, como chegavam até lá e qual era o tratamento realizado. Tratamento que, muitas vezes, era imposto até para quem não tinha sequer recebido um diagnóstico de doença mental, mas de uma forma ou de outra, representava um “incômodo” para a sociedade: alcoólatras, prostitutas, meninas grávidas que foram estupradas por seus patrões, esposas cujos maridos queriam viver com a amante, tímidos,…

Andar nu, tomar água do esgoto e dormir em “camas” de palha não chegam nem perto ao que de fato aconteceu com as pessoas que viveram lá. Descaso, hipocrisia e negligência tornam evidente que os verdadeiros loucos eram os que estavam soltos.

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Repleto de histórias verdadeiras, fotos e informações, o livro conta sobre um capítulo negro na história do Brasil, um capítulo que tem desdobramentos até hoje e que te faz refletir de uma forma única. “A autora traz à luz um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e também da população, pois nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a omissão da sociedade“.

Atualmente, vive-se num processo de adaptação em relação ao tema de saúde mental, principalmente após a Reforma Psiquiátrica, que, em resumo, propôs um modelo mais humano ao atendimento de tais pacientes. Mas percebe-se que ainda existe um certo tabu ao falar de transtornos mentais, hospitais psiquiátricos, terapia,… E indo mais a fundo disso tudo, com certeza ainda existe o costume de exterminar aquilo que é incômodo, independente de sua origem.

Por mais que não seja algo explícito, querer “esquecer” aquilo que não agrada ainda é tido como o ideal da sociedade. O aluno que questiona demais e não se enquadra no tipo de aula é expulso, o aumento da criminalidade é seguido pelo pedido de novas leis, o descontrole do uso de drogas é acompanhado por internações compulsórias,… Os exemplos são muitos.

Mas o esforço de se tentar entender o motivo do aluno não acompanhar a aula do modo esperado, encontrar o porquê da criminalidade se manter e os fatores que influenciam para que muitas pessoas comecem a usar drogas é muito grande, é muito cansativo. Pensar ainda que tudo isso faz parte de uma coisa só, de um mundo que é o mesmo, e, portanto, ninguém é independente e, principalmente, qualquer ação se desdobra em diversos outros níveis, atingindo diversas outras pessoas… Tudo isso dá muito trabalho.

Ninguém mais tem tempo pra tentar entender o que acontece no mundo. Só há o tempo de exigir que as coisas que incomodam desapareçam, e, de resto, cada um que cuide da sua própria vida.

Quer mais um choque de realidade? Só assistir o documentário, lembrando que ele foi filmado há menos de 40 anos atrás…

Ok. Eu sei que foi meio demais pra primeira resenha do ano. Então deixa eu contar que houveram pessoas que trabalharam no hospital ou que de alguma forma souberam do que acontecia lá e não viraram as costas. Elas contribuíram de forma inigualável para que hoje existissem casas terapêuticas para os pacientes que ainda vivem, proporcionaram encontros com familiares, e espremeram o que havia de esperança nesses sobreviventes, investindo na possibilidade de uma vida digna e feliz. E o livro não ia deixar escapar essa parte da história também. Vale muito a leitura (; E quem morar por perto e tiver interesse no tema, uma das construções do hospital (que ainda existe!) foi transformada em museu, a visita é uma boa pedida.

Beijo *:

 

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13 comentários sobre ““O Holocausto Brasileiro” e a comodidade em virar as costas

  1. Por favor, aonde fica o botão pra curtir mil vezes??
    Eu vi um documentário sobre isso em 2012 se não me engano, e fiquei perplexa. Deus, isso foi horrível. E o pior é que mesmo isso sendo uma VERDADE, tem gente que não acredita.
    Beijão

    1. É até difícil de acreditar no quanto as pessoas se esforçam pra não ver esse tipo de coisa… E o pior é saber que muito disso ainda acontece, só que em diferentes formatos :/
      Beijo!

  2. esse é um caso que mostra a verdade de sempre, de toda a humanidade.
    vale lembrar duas coisas: que isso ainda acontece principalmente em países africanos e do oriente médio (que são na maioria das vezes muçulmanos), e que apesar de tudo isso estar aí, documentado e registrado, não haverá punição e/ou indenização de qualquer tipo para os relacionados.

    complicado, mas é a humanidade

  3. Meu irmão tinha problemas mentais e ficou internado muitos tempo em diversas clínicas.
    Mesmo sendo um passado recente e nao tendo sido algo tao bárbaro assim, ainda é notório que saúde mental no Brasil nao é visto como prioridade.
    Como ele mesmo dizia: saía pior todas as vezes que era internado.
    Eu já tive oportunidade de ver esse documentário e sempre me emociono muito com ele, pois realmente é muito forte e nos faz questionar a importância que a vida e o bem-estar dos outros tem pra sociedade e pra nós mesmos.
    Fico muito feliz de te ver abordando este tema aqui. Eu mesma sempre quis fazer, mas nao faco por conta das minha sobrinhas que acompanham o meu blog e nao tem conhecimento da causa da morte do meu irmão, que infelizmente se suicidou em 2012.
    Parabéns pelo post! Muito bom, sensível e muito respeitoso ao tratar desse assunto tao delicado.

    1. Tinha muito mais coisa que eu queria escrever sobre esse assunto, mas achei que ia ficar pesado demais… Mas é um tema que me interessa bastante, desde antes de escolher Psicologia na faculdade.
      Quando fiz projeto comunitário num hospital psiquiátrico percebi que aquelas pessoas dependem muito mais da boa vontade e da sensibilização de funcionários e voluntários do que de iniciativas do Estado. Só que ainda assim é pouca gente que toma conhecimento de como é a vida de quem tem transtornos mentais, assim como a dos familiares; não é fácil, e a falta de conhecimento da população torna pior ainda.
      Mas fico feliz que tenha gostado do post, principalmente por saber que ele significa mais pra você do que pra maioria… e ao mesmo tempo sinto muito pelo seu irmão, de verdade.
      Mas obrigada! Pretendo escrever mais sobre essas coisas mais pra frente, dar dicas de filmes e outros livros relacionados também!
      Beijos! *:

  4. Eu vi esse livro quando fui à livraria e fiquei bem tentada a comprar, mas acabei levando outro… Lendo essa resenha, fique com mais vontade de ler! Apesar que tenho certo receio com tema assim pq fico triste em pensar que tanta gente já morreu de formas horríveis :( Mas parece ser interessante.
    Beijinhosss!

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